Sustentabilidade na prática farmacêutica e o cuidado personalizado

São Paulo, 26 de fevereiro de 2026.

Ao longo do ano de 2026, o CRF-SP discutirá temas atuais como sustentabilidade e cuidado personalizado, considerando a importância de reforçar o papel essencial do farmacêutico na orientação adequada da população, não apenas quanto ao uso racional de medicamentos, mas no cuidado personalizado, como no uso responsável e criterioso de suplementos nutricionais.

É indispensável que o farmacêutico se mantenha atualizado e atue com base em evidências científicas e responsabilidade sanitária, a fim de evitar interpretações equivocadas que possam gerar insegurança, medicalização excessiva ou riscos à saúde da população.

Nesse contexto destacamos, que os valores de referência dos exames laboratoriais representam intervalos estatísticos, construídos a partir de populações específicas, e não configuram, isoladamente, diagnóstico ou indicação terapêutica. A interpretação desses resultados deve sempre considerar o contexto clínico individual, incluindo idade, sexo, condições fisiológicas, comorbidades, uso de medicamentos, hábitos alimentares, estilo de vida e histórico clínico do paciente.

Dessa forma, a suplementação de vitaminas, minerais e outros nutrientes deve ser indicada apenas quando houver deficiência comprovada, necessidade clínica específica ou evidência científica clara de benefício, sempre após avaliação profissional qualificada e acompanhamento adequado.

A autossuplementação, frequentemente estimulada por informações simplificadas, discursos mercadológicos ou interpretações reducionistas de exames laboratoriais, representa um risco sanitário relevante. Da mesma forma, a oferta de fórmulas ditas “personalizadas”, comercializadas de forma ampla e indiscriminada, sem avaliação clínica individualizada, contraria os princípios do cuidado em saúde centrado no paciente.

O uso de suplementos, sejam manipulados ou industrializados, devem ser resultado de avaliação criteriosa, com indicação clara, objetivos definidos, acompanhamento profissional e reavaliação periódica.

O uso indiscriminado de suplementos, especialmente sem orientação adequada, pode resultar em:

  • desequilíbrios metabólicos;
  • toxicidade por excesso de micronutrientes;
  • interações medicamentosas;
  • falsa sensação de proteção à saúde;
  • desvio do foco de intervenções comprovadamente eficazes, como alimentação equilibrada e hábitos de vida saudáveis.

Cabe aos profissionais de saúde, em especial ao farmacêutico:

  • promover educação em saúde baseada em evidências;
  • orientar a interpretação responsável de exames laboratoriais;
  • incentivar o uso racional de suplementos e medicamentos;
  • combater a autossuplementação e a medicalização excessiva;
  • proteger a população contra práticas que priorizam o consumo em detrimento do cuidado.

Reforça-se, portanto, a importância de uma abordagem ética, técnica e responsável na discussão sobre exames laboratoriais e suplementação nutricional. A promoção da saúde deve estar fundamentada na ciência, na individualidade do paciente e no uso racional de recursos terapêuticos, evitando simplificações, generalizações e estímulos ao consumo indiscriminado.

A suplementação nutricional deve ser compreendida como intervenção clínica pontual, indicada apenas quando houver real necessidade. A banalização do uso de suplementos, especialmente por autossuplementação ou por fórmulas comercializadas como “personalizadas”, representa risco à saúde e desvio dos princípios do cuidado baseado em evidências.

 

Dra. Amouni Mourad, assessora técnica do CRF-SP

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